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Camilo
Fernando Caminho
Técnica de Expressão Escrita Académica
Licenciatura
em Organização e Gestão da Educação
5˚ Ano / Turma - A
Universidade Eduardo Mondlane
CeaD-Quelimane
2019
Elsa
Chawal Emualo
Resumo
da Obra de Paulina Chisiane
Trabalho, a ser enviado
no Universidade Eduardo Mondlane
, no Curso Licenciatura em Organização e Gestão da Educação
Docente:
PhD. Lourenço Cipre
Universidade Eduardo Mondlane
CeaD-Quelimane
2019
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Niketche: Uma
história de poligamia.
Um estrondo ouve-se do lado de lá.
Uma bomba. Entro num delírio silencioso, profundo. Rajadas de
ansiedade varrem-me os nervos como
lâminas de vento. Onde anda esse homem que me deixa os Filhos e a
casa e não dá um sinal de vida? Um marido em casa é segurança, e protecção. Na
presença de uni marido, os ladrões se afastam. Os
homens respeitam. As vizinhas não entram de qualquer maneira para pedir sal,
açúcar, muito menos para cortar na casaca da outra vizinha. Na presença de um
marido, um lar é mais lai;
- O Tony é o culpado de tudo isto.
Sempre ausente. Primeiro foi uma noite de ausência, depois outra e
mais outra. Tornou-se hábito. Ele
diz-me que faz turnos à
noite. Que supervisa o trabalho de todos os polícias pois é quando a noite cai que os
ladrões atacam. Faço de contas
que acredito nele.
Mas os passos dos homens são
rasto de caracol, não se escondem.
Sei muito bem por onde
anda.
—Não és a única, Rami. O meu
marido, por exemplo —diz
uma vizinha —. largou-me faz anos e correu atrás de uma menininha de catorze anos,
para começar tudo de novo.
Um velho que se tornou criança. —
O meu tem aquelas concubinas que conheces, com filhos e tudo diz outra. —
Pensas que me ralo?
Tony me despreza assim, Obedecer,
sempre obedeci. As suas vontades sempre fiz. Dele sempre cuidei. Até
as suas loucuras suportei.
sou a mulher mais perfeita do mundo. Fiz dele o homem que é.
Dei-lhe amor. Sacrifiquei os meus
sonhos pelos sonhos dele. Desde que ele subiu de para comandante da
polícia, a infelicidade entrou
nesta casa.
— Pode-se roubar uma pessoa viva,
ainda por cima um
comandante da polícia?
— Um marido rouba-se, nesta terra. —Não sejas criança, gémea minha. Ele cansou-se de ti e partiu. —Mentes!
— Um marido rouba-se, nesta terra. —Não sejas criança, gémea minha. Ele cansou-se de ti e partiu. —Mentes!
As minhas rivais entraram todas no
paraíso, sim, entraram.
De marginais passaram a gravitar dentro do cerco da família. E eu, o que
ganhei com esta farsa?
A minha sogra mandou-me chamar às
seis da manhã, Surpreendeu-me com insultos. Mas ela é bondosa. e não ligava
nenhuma. Porque a nora, diante da
sogra, é uma eterna criança, que
deve saber ouvir, suportar e calar. Perguntei-lhe o que se passava e ela contou-me.
- O Tony passou a noite
ali. Chegou triste, cabisbaixo, E
chorava como uma criança. Pediu algo para comer e a mãe serviu-lhe o pouco que
tinha. Comida sem sal. Ardia de febre e delirava: envenenaram-me,
mãe! Envenenaram-me.
A velha escuta-me com atenção e desfalece em soluços. Fui
violenta, condeno-me. Contei tudo com frieza, sem o mínimo de delicadeza. A
senhora deve estar magoada. Como eu, deve sentir-se traída, pois ela também é
contra a poligamia que fere a família cristã. De repente vejo muita luz no
velho rosto.
Agora quer saber da vida das quatro noras. Eu conto-lhe
maravilhas. Invento histórias de embalar e ela se encanta.
—Ah, Rami, por que nunca me contaste isso? Por que andaram vocês a
adiar a minha felicidade? Tenho este quintal grande, as crianças podem vir
correr e brincar
Tenho estas árvores com tanta fruta, que apodrece e cai, porque ninguém a come, e afinal tenho tantos netos! Onde é que eles moram? Quando me virão visitar? Diz que preciso de falar-lhe com urgência, temos que trazer essas crianças para esta casa.
Tenho estas árvores com tanta fruta, que apodrece e cai, porque ninguém a come, e afinal tenho tantos netos! Onde é que eles moram? Quando me virão visitar? Diz que preciso de falar-lhe com urgência, temos que trazer essas crianças para esta casa.
A velha pensa no calor humano. No fim da solidão. Na alegria de
ter a casa cheia de crianças para colorir o seu inundo de tristeza. Nesta
guerra ganhou a minha sogra e
as minhas rivais, porque eu, Rami, perdi a batalha.
as minhas rivais, porque eu, Rami, perdi a batalha.
O que fazemos agora, meninas? Decidimos por um protesto que não seria greve de
sexo, mas um correctivo, uma manifestação amorosa, pacífica, que ajudasse oTony a pôr a mão na consciência. Primeira mulher de polígamo é isto. Sentar num trono cobiçado. Usar uma coroa disputada. Controlar os desejos reprimidos de esposas em cio, revoltadas, insatisfeitas. Estas mulheres falam das suas mágoas e nem imaginam a dor que sinto por tudo isto
Convidámos
oTony para um jantar de família. Porque
é bom estarmos todos juntos de vez em quando, explicá-
mos. Ele gostou da ideia e concordou. Vestimo-nos com
todo o esmero e partimos para o combate. Ao cair da
tarde reunimo-nos em casa da Saly O Tony estava sentado na sala e lia os jornais do dia. Minhas pombinhas,
saudou-nos ele com o sorriso mais franco do mundo,
criador diante das fêmeas reunidas no curral. Ofereceu-nos uma conversa de mel com palavrinhas mais doces
que balas de açúcar. O jantar foi bom, o ambiente era
agradável. Fizemo-lo beber o suficiente para destravar a
língua.
—Tony, sempre nos interessou saber por que gostas
tanto de nós. Faz de conta que és o nosso espelho e diznos: como é que nos vês?
— Querem saber?
— Queremos!
—Não se vão zangar nem ofender?
— Claro que não!
O Tony começa por lalar da mais nova
é bom estarmos todos juntos de vez em quando, explicá-
mos. Ele gostou da ideia e concordou. Vestimo-nos com
todo o esmero e partimos para o combate. Ao cair da
tarde reunimo-nos em casa da Saly O Tony estava sentado na sala e lia os jornais do dia. Minhas pombinhas,
saudou-nos ele com o sorriso mais franco do mundo,
criador diante das fêmeas reunidas no curral. Ofereceu-nos uma conversa de mel com palavrinhas mais doces
que balas de açúcar. O jantar foi bom, o ambiente era
agradável. Fizemo-lo beber o suficiente para destravar a
língua.
—Tony, sempre nos interessou saber por que gostas
tanto de nós. Faz de conta que és o nosso espelho e diznos: como é que nos vês?
— Querem saber?
— Queremos!
—Não se vão zangar nem ofender?
— Claro que não!
O Tony começa por lalar da mais nova
Caminhamos até ao jardim público.
No jardim não havia
gente. Éramos só nós e as plantas naquele paraíso chuvoso, Éramos barro fundido num
só monte, ele Adão e eu a
serpente, à beira do pecado original. Tenta arrancar de mim uma gota de amor, uma palavra
de reconciliação.
A sua boca ressequida cola-se à minha
num beijo divino. O abraço
é forte e pressiona-me o ventre duro como uma pedra, palpitando de vida seus
braços caem como um fardo. As três trovoadas que um dia tentou encomendar
contra Rami, hoje
atacam-lhe o cérebro, o coração e o sexo e fazem dele um
super-homem calcificado no éden da praça. Ele só vê o escuro e a
chuva. Fica uns minutos intermináveis a contemplar o vazio. Era uma ilha de fogo no meio da
água. Solto-o. Não
cai, mas voa no abismo, em direcção ao coração do deserto, ao inferno sem fim.
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